“Raw”: longe da simplicidade do grotesco

O canibalismo não é um tema novo no cinema. Seja em filmes de apocalipse zumbi ou no grotesco Holocausto Canibal esse é um fator de horror e choque usado com certa frequência em filmes de terror. Raw, filme franco-belga de 2016, conta a história de Justine (Garance Marillier), uma estudante vegetariana do primeiro ano do curso de medicina veterinária que após consumir rim cru de coelho em um ritual de iniciação da faculdade passa a ter desejos incontroláveis de comer carne, incluindo humana. Apesar da premissa, engana-se quem pensa que esse é apenas mais um filme de terror canibal.

A diretora Julia Ducournau criou uma narrativa enigmática sobre aceitação, identidade, despertar sexual, decepção amorosa e relação entre irmãs. Justine entra na faculdade com o dever de honrar sua família, mas ao longo do caminho encontra a necessidade de se encaixar em um novo ambiente, tão diferente do seu habitual.

Raw mescla momentos de horror, com momentos irmandade, sofrimento por um amor não correspondido e dramas da vida acadêmica tornando-se um filme de terror com um enredo muito mais interessante e bem construído que seus companheiros de gênero.

As cenas das festas estudantis nos porões da faculdade são inebriantes, é como se o espectador também estivesse no meio da música alta e da bebida. As mudanças corporais de Justine causam agonia, aflição e até nojo para os de estômago mais sensível. O filme é sucedido ao brincar com emoções e misturar momentos de calmaria e agitação.

É difícil caracterizar o clímax de Raw. A obra presenteia seus espectadores com três momentos de tensão e reviravolta feitos para prender qualquer um na ponta da cadeira. A trilha sonora contribui para a criação de uma atmosfera de suspense.

Seja no horror gráfico, na tensão do desconhecido ou no desconforto do sentimento de “não pertencimento”, Raw conduz uma experiência intensa, uma verdadeira montanha-russa de sentimentos.

Jornalista que ama música, sentimentos e cultura pop.

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