O legado das legacy sequels no horror

[contém spoilers]

Ele voltou! E agora está grisalho!

Rápido, fale um vilão de filme de terror. É muito provável que você tenha pensado em Jason, Leatherface, Ghostface, Chucky ou Michael Myers. Não, isso não é ruim. Também penso automaticamente neles. Não é a toa que são filmes clássicos do gênero, tão clássicos que alguns desses killers ganharam novos filmes nos últimos anos.

Legacy sequels são filmes que, geralmente, acontecem anos depois do original e dão sequência a história com os personagens antigos e introduzindo novos. Fora do gênero do horror, recentemente tivemos Top Gun: Maverick e Matrix: Resurrections.

Dentro do gênero do horror, Halloween retomou a história de Michael Myers em 2018. O diretor David Gordon Green optou por manter canônico apenas o filme original, então Laurie não é irmã do assassino. Jamie Lee Curtis retorna no papel de uma das final girls mais conhecidas da história, agora como uma mulher mais velha e muito traumatizada.

Seguindo a regra dos legacy sequels, novos personagens também entram em cena. Em uma boa escolha, Laurie ganha uma filha e uma neta que também irão sofrer na mão de Michael em mais uma noite de Halloween sangrenta.

Jamie Lee Curtis entenda que eu te amo!!!

O filme de 2018, que curiosamente não recebeu subtítulo, quase como um reboot, é bom. Traz um tom moderno para a franquia, mas mantém a energia. Como num clássico caso Hollywoodiano, David Gordon Green assinou contrato para uma trilogia. E é agora que a coisa começa a feder. Halloween Kills foi lançado em 2021 sob muita expectativa de fãs e crítica. Se o primeiro filme foi bom o que poderia dar errado, não é?

Podemos até discutir se o filme é mesmo ruim ou apenas fora de tom, mas uma coisa precisamos concordar: não foi satisfatório. Com a faca e o queijo na mão, David Gordon Green optou por mais uma imersão ao passado e resolveu reescrever uma história já tatuada na cabeça de milhares de fãs da franquia.

Ok, aceitar que o segundo filme do John Carpenter não faz mais parte da história oficial junto de todas as outras continuações é uma coisa, mas tentar vender que o assassino cruel Michael Myers não tem fixação nenhuma pela Laurie e só quer voltar pra casa é demais.

a gente fica meio assim no final

Seguindo essa lógica ridícula ele só mataria quem entra em seu caminho e a Laurie nunca entra. Se no filme de 78 ele só queria ir pra casa…era só ele entrar na própria casa…que estava abandonada. A falta de consideração com detalhes explícitos matou Halloween Kills e baixou significativamente as expectativas para Halloween Ends. O perigo de revisitar um clássico é sempre grande, o próximo exemplo reforça ainda mais essa teoria.

Em 1974 era lançado ao mundo O Massacre da Serra Elétrica. O delírio febril sobre assassinato e canibalismo tornou-se um dos filmes mais definitivos do gênero. As várias nuances de Leatherface e sua família desajustada foram exploradas em diversas sequências.

e aqui, história foi feita.

Em 2022, um novo Massacre da Serra Elétrica foi lançado pela Netflix. Ao moldes de Halloween, também foi decidido levar em consideração apenas o primeiro filme da franquia. E assim como Halloween, havia uma grande mitologia já decorada por fãs ao redor do mundo para ser seguida.

Tendo como foco um grupo de millennials, o novo Massacre da Serra Elétrica aumenta a violência, mas escorrega de vez no roteiro. É possível se divertir com o filme? Claro. O filme é bom? Aí é uma pergunta difícil. Entre sangue e gritos, Leatherface ganhou uma nova personalidade. Agora agindo como Michael Myers, ele não atua mais como capanga de sua família, o assassino mata por vingança.

O mais fascinante da franquia do Massacre da Serra Elétrica era justamente a dinâmica familiar. A louca, insana e disfuncional dinâmica familiar que chegava a gerar a dúvida: o Leatherface também é uma vítima? A descaraterização do icônico personagem incomoda assim como a completa ausência de seus familiares. Para onde foram?

essa é uma cena real do filme, pra ser justa eu dei muita risada

O pior ainda está por vir. David Blue Garcia, assistiu Halloween (2018) e pensou que poderia fazer igual e por isso resolveu trazer de volta Sally, a final girl do filme original. A atriz que deu a vida a personagem em 1974, já faleceu, outra foi escalada para a missão. E que missão desgraçada. Pouco tempo de tela e cenas questionáveis. Era melhor termos ficado sem Sally.

A bagunça de 2022 ainda tem uma personagem traumatizada por um tiroteio, uma horrenda tentativa de discussão sobre controle de armas e uma trama sobre gentrificação.

Após dois maus exemplos, chegamos na luz. Scream 5, ou como foi lançado, Scream, chegou aos cinemas após um hiato de 10 anos do último último filme da franquia Pânico. O responsável pelos quatro filmes anteriores é o genial Wes Craven que fez todos, fãs ou não de horror, conheceram o rosto do Ghostface.

o maior que temos.

Em 2022, Sidney, Gale e Dewey estão de volta, mas não são o foco principal da história. Como diz a cartilha do legacy sequel, somos apresentados a novos personagens. As irmãs Tara e Sam são as novas principais. Com diversas referenciais ao primeiro filme da franquia, Scream (2022) não ignora nenhuma continuação, mas toma o primeiro lançamento como grande bússola.

Todos os Pânicos tem um toque metalinguístico, neste, o tema são as legacy sequels, chamadas carinhosamente de requels. O Ghostface do filme estaria recriando os crimes de Stab (filme que existe no mundo de Scream) e que é uma cinebiografia do que aconteceu com Sidney em 1996.

apenas uma foto de minha mãe Gale Weathers

Se ainda não ficou claro, eu amei Pânico 5. O refresco na franquia, as novas discussões sobre o gênero, a tensão, as mortes, as revelações…Teve uma coisa só que eu não gostei, mas isso é assunto pra outro texto. O que é importante para agora é: Scream (2022) soube navegar as águas tortuosas de trabalhar com uma premissa conhecida e amada, inovar e não se perder no processo.

Afinal, o que uma legacy sequel precisa para ser boa? Fan service? Não! Coragem e inovação? Sim! O problema com Halloween Kills é ignorar o material antigo e tentar substituir as lacunas com premissas piores que as já estabelecidas. As novas verdades precisam ser tão boas quanto as antigas para serem aceitas.

Em o Massacre da Serra Elétrica é ainda pior porque não só ignora aspectos importantes da trama, como não fornece novas explicações. Se é uma legacy sequel, é mais que natural esperar que o que foi essencial antes, seja ao menos importante agora. Mas não, no filme de 2022, não é nem citado. Nesse caso, talvez a opção mais sábia seria fazer um reboot.

Por essa e por outras que é preciso dar tanto crédito ao Don Mancini, criador do Chucky. Ele não ignora nenhum dos filmes produzidos, tudo é canônico. Tudo tem espaço e explicação no complexo mundo do boneco assassino. Mancini aceita tudo, até o que não é muito bom e essa característica fez com que fosse possível produzir uma série de TV tão incrível quanto Chucky.

Acho que estamos precisando de mais Don Mancinis e de mais Pânicos. Mais narrativas cientes de suas histórias e diretores sem medo delas.

lindo ele de roupinha

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Jornalista que ama música, cinema, sentimentos e cultura pop.

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