Menino que não chora, bate.

O que acontece quando não falamos de papéis gênero e o porquê precisamos falar deles urgentemente

Ao nascer a criança parece ter dois caminhos pré traçados a seguir: gostar de rosa ou de azul, brincar de boneca ou jogar bola, chorar ou ser “forte”. O que determina qual caminho é o certo é apenas um órgão, nada mais. Essa limitação imposta às crianças gera e gerou ao longo de tantos anos mulheres silenciadas e homens violentos.

Simone de Beauvoir já dizia em seu livro “O Segundo Sexo” que não se nasce mulher: torna-se. O papel de gênero designado ao nascimento define como será a vida da criança que acaba de nascer. Define se ela será “forte” ou “fraca”, “homem” ou “mulher”.

Os papéis sociais dos sexos fazem parte da cultura. Acreditar que o homem é provedor e a mulher agregadora da família não são decisões racionais, é algo aprendido, imposto. A desconstrução necessária para deixar de acreditar nesses estereótipos seculares é gigantesca, mas necessária e imediata.

Existiram tribos de aborígenes australianos em que os papéis de gênero eram divididos diferentemente do que conhecemos hoje. Homens e mulheres realizavam tarefas de homens e mulheres sem distinções. Outras tribos tinham os papéis masculinos e femininos trocados. As mulheres eram consideradas detentoras do poder pois eram capazes de gerar vida. Essas diferenças culturais são um grande aviso de que o sexo de nascimento não é determinante, e sim a sociedade em que se é inserido.

A violência é atrelada ao sexo masculino como algo viril, positivo, “coisa de macho”. Ensinar aos meninos que ser um homem violento, explosivo é o certo é selar um futuro triste que está nos noticiários todos os dias.

Para as meninas é reservado o título de doce, recatada. Ensinar uma menina a não se posicionar e acreditar que abaixar a cabeça é uma regra, é um crime contra o sexo feminino.

A discussão sobre gênero precisa ser debatida nas escolas para evitar mais tragédias. Não é normal dizer a um garoto de quatro anos que ele não pode chorar porque ele é “homem”. Ele pode, ele deve. O debate sobre os papéis de gênero com crianças é positivo. Amplia a educação emocional dos pequenos, mostrando que força e sentimentos andam juntos.

Ao criar crianças questionadoras, se forma uma sociedade questionadora. Essas crianças poderão chegar em casa e questionar seus pais. Perguntar para o papai por que ele não lava louça, ou dizer para ele que está errado gritar com a mamãe. A transformação vem de baixo e nada melhor do que as escolas para serem o ponto de partida. Lá, as futuras gerações poderão entender que homem não é violento e mulher não é “chorona”, apenas nos fazem acreditar nisso.

Com tantos casos de feminicídio, estupro, assédio, violência é inviável continuar naturalizando estereótipos tóxicos. O gênero não deve ser temido, ele deve ser debatido e compreendido.

Jornalista que ama música, sentimentos e cultura pop.

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