(Sempre soube que amava escrever, mas quando eu tinha 17 anos eu descobri o quanto a escrita era essencial para mim. Hoje estava relendo algumas coisas e encontrei esse texto. Direto de 2015 para este momento)

Estou no último ano do colégio e por muito, muito tempo me achei burra. Não tenho facilidade em matemática, química, física ou biologia e estudo em um colégio que as supervaloriza. Eu gosto de história, literatura, sociologia e filosofia. E mesmo amando essas matérias, sei muito bem que meu rendimento nelas não é 100%. Não sou do tipo “inteligente de livro”, que lê, exercita e aplica em provas o que aprendeu. Eu gosto de escrever, gosto de poesia, de música e absolutamente amo desvendar os mistérios dos sentimentos humanos. Infelizmente nunca consegui aplicar essas paixões na escola. Minhas notas em redação são boas, mas não ótimas, gosto de escrever sobre o cotidiano, sobre o que sinto e não sobre a economia do leste Asiático.

Quando peguei minha primeira recuperação em matemática na quinta série, lembro ter sentido como se fosse o fim do mundo. Eu passei de ano com folga, mas o sentimento amargo não saiu da minha boca. Na sexta série a história se repetiu e dois anos mais tarde novamente. No primeiro ano do Ensino Médio, logo no primeiro trimestre, peguei quatro recuperações. Isso sim foi uma tragédia grega. Senti-me burra, incompetente, lesada. Eu não conseguia entender a cinética, a trigonometria e a citologia. O resto do ano foi recheado de mais notas baixas, frustrações e lágrimas. A minha confiança havia secado. Eu fiquei em estado de calamidade pública e puxei forças internas que não sabia que tinha para conseguir sobreviver aquele ano.

O segundo ano não foi diferente do primeiro. Só que minha situação comigo mesma chegou ao fundo do poço. Eu estava convencida de que era a pessoa mais burra daquele colégio e que nunca seria nada na vida. Passei de ano raspando e com uma carga de ansiedade gigantesca que me fez perder peso e fazer meu cabelo cair.

O último ano, o ano do vestibular, o ano mais importante precisava ser diferente. Eu fiz planos, esquemas e muita meditação para mudar de rumo. Matemática, física, biologia e química quebraram minhas pernas na primeira volta e fizeram a corrida virar um sufoco. Lá estava eu, novamente, na mesma situação que assombrou meu Ensino Médio. Lá estava eu me sentindo inútil e completamente idiota. Nada mais fazia sentido. Deixei as emoções tomarem conta e larguei mão de minhas obrigações.

Comecei a escrever poemas para aliviar o que me matava por dentro. Recebi elogios e comecei a escrever cada vez mais. Então, escutei um: “quem sabe um dia você não lança um livro, Ana?”. Uma lâmpada acendeu em cima da minha cabeça. Escrever é o meu propósito de vida. É nisso que eu sou boa. É esse meu talento. É essa minha inteligência. Eu não sou boa em fazer contas, mas sei que o X da questão é que cada um se destaca em algo. E o fato de nosso sistema de ensino não valorizar artes ou matérias humanas não pode nos modelar. Penso em quantos escritores, músicos, poetas, bailarinos nós perdemos. Eu demorei 17 anos para me dar conta de que sou muito inteligente. Demorei 17 anos para perceber que nenhuma prova nunca, jamais irá provar o quão poderosa é minha massa cinzenta.

Jornalista que ama música, sentimentos e cultura pop.

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